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19.2.10

Jovita Feitosa e a Guerra do Paraguai

Napo estava pensando em escrever um novo roteiro de filme. Seria baseado na vida de Jovita Feitosa. Foi a primeira mulher "transgenero" da historia brasileira. Uma cearense de indole forte, guerreira, inquieta, que fez questao de se transfigurar e participar como "homem" na Guerra do Paraguai. Sim, porque a definicao de transgenero e' alguem que assume o papel social do outro sexo. E' uma transgressao de genero mesmo, literalmente falando. Naquela epoca, quem poderia imaginar ou aceitar uma mulher no exercito? Pois Jovita estava na vanguarda. Com a mascara masculina esteve presente ativamente no confronto que marcou a historia com o quase exterminio da populacao do pequeno pais. Demonstracao de forca e crueldade desnecessaria do Brasil. O mesmo que fizeram os Estados Unidos com suas duas bombas atomicas jogadas no Japao na Segunda Guerra mundial. A diferenca e' que o Brasil nao acabou somente com duas cidades, mas com a populacao inteira, quase, homens, mulheres e criancas. Bem, o roteiro do filme ja' estava ficando complicado e confuso, pois tinha muita informacao para ser passada. A simplicidade tinha que fazer a diferenca. Entao, a historia seria em torno da questao da mulher que precisou "virar" homem para poder participar da guerra, mas acabou fazendo parte de uma historia de crueldade do mais forte sobre o mais fraco. Na sua volta ao Ceara,  arrependiada de seu passado, tentou ser "feminina" novamente. Napo tinha perdido o nexo de suas ideias. A noite seria longa. Precisava beber mais...

2.1.10

República dos Pampas

Algum tempo depois de construir os alicerces da nacao, Wonderland comecou a sofrer turbulencias provocadas por grupos paramilitares que nao queriam fazer parte da federacao. O primeiro acontecimento em sua cronologia foi marcado por um movimento guerrilheiro no Acre, patrocinado pelos americanos, que almejava a criacao da Fordlandia. A intervencao federal, apesar de tardia, conseguiu apagar a faisca que poderia gerar uma guerra. E os Soldados da Borracha foram indispensaveis para tal empreitada. Agora, um grupo separatista germinava na parte sul do pais. Um antigo Centro de Tradicoes Gauchas (CTG) se tranformou no Movimento Revolucionario dos Pampas (MRP) que buscava a independencia da regiao. Logo, a noticia foi parar no Comite Central do Partido Comunista. Precisavam investigar as causas, e principalmente os objetivos do grupo rebelde.

1.1.10

Êxodo Urbano: favela

Êxodo e' uma palavra que caracteriza o movimento de pessoas em busca de melhores condicoes de vida. Pode ser espontaneo ou forcado, mas e' dificil acreditar, geralmente, que alguem esteja saindo de seu estado natural espontaneamente. Principalmente, quando esse "estado" supoe boa qualidade de vida. Portanto, o espontaneo pressupoe uma forca por tras induzindo tal movimento.  A Inglaterra e o Brasil assistiram seus proprios exodos. Os ingleses atraves de uma revolucao, e os brasileiros atraves de uma inducao.

18.11.09

O melhor emprego do mundo

Depois de algum tempo, Wonderland, ainda seguindo os passos para se tornar um pais,  estava construindo os alicerces para tal empreitada. No rascunho, o projeto de nacao se chamava "Pais do faz de conta". Nele a iniciativa privada estava germinando, e a publica, sim, era a verdade geradora de empregos. E naquele momento precisava de pessoas responsaveis e capazes para policiar os pagadores de impostos de grande peso. No aliciamento de seu corpo funcional, a forma mais justa e democratica para tanto, seria atraves de concurso publico, e o nome do cargo tambem tinha sido escolhido: "Auditor Fiscal da Uniao".

24.10.09

Wonderland X Neverland

Garcia abriu o jornal de domingo na secao dos classificados e viu dois anuncios: um dizia para vir morar na "Neverland" e o outro na "Wonderland". O primeiro era tentador, entretanto exigia muita motivacao, e esforco para iniciar as obras. Era um pais distante que buscava imigrantes para povoar seu territorio, e para tanto, oferecia 16 hectares de terra, vias publicas, iluminacao e estradas de ferro ja' montadas para o abastecimento dos grandes centros. O restante seria pago com os impostos publicos gerados pela receita do trabalho humano justamente advindo desse loteamento. Nos primeiros 5 anos, o imigrante teria somente o direito de posse sobre o terreno, e depois somente seria seu proprietario. O trem passava uma vez por semana para recolher a producao local, e levar ate' a capital do Estado. A estrada de ferro havia sido privatizada ha' 5 anos, e portanto, o escoamento da producao nao sofria interrupcoes ja' ha' algum tempo. O "Neverland Bank" oferecia emprestimos a longo prazo com taxas fixas. Aos poucos foi-se formando uma comunidade de nome estranho, Quakers, que foi, inclusive construindo suas proprias escolas. Depois chegava a vez da "Wonderland". Era um pais das mesmas proporcoes, mas com incentivos distintos. O imigrante recebia uma doacao vitalicia de um latifundio. Em contrapartida, teria que fazer um investimento inicial para comecar , de imediato, uma producao em grande escala e em sistema de "plantation". O banco local oferecia emprestimos a juros baixos, e o pagamento poderia ser feito tanto em especie como em "commodities". Nessa modalidade, o novo residente deveria estar preparado para seu novo sistema produtivo e tudo seria em grandes proporcoes, alem, claro, de voltado para o mercado exterior. Portanto, como quase toda producao seria voltada para fora, o Governo ofereceria milhares de incentivos fiscais para a importacao de produtos, inclusive humanos (escravos). Nao haviam estradas pavimentadas, iluminacao publica, nada. Os navios ancoravam nos portos uma vez por mes para recolher a producao local e trazer os produtos importados para abastacer as fazendas. Apos 10 minutos cocando a cabeca, Garcia pegou o jornal e foi correndo ate' o comite central do Partido Comunista. Aquilo tudo foi demais para sua inteligencia! Queria saber se algum daqueles paises teria alguma caracteristica "socialista" que poderia ser utilizada para desencadear uma revolucao, pois entao, estaria imediatamente emigrando para um deles para incitar as massas populares! Ele chegou no velhinho barbudinho, presidente do partido, sentado, que respondeu: pega um cidadao de "Neverland" e coloca para passar uma temporada em "Wonderland" que ele vai te dizer em dois tempos...

30.5.09

Os Soldados da Borracha e a Fordlandia

Garcia abriu o jornal de domingo e encontrou uma chamada que parecia feita para ele, pensou o entusiasmado rapaz. Buscava, melhor dizendo, recrutava pessoas interessadas em juntar-se aos “Soldados da Borracha”. Esses paramilitares foram convocados pelo governo brasileiro para combater grupos guerrilheiros patrocinados pelos americanos, interessados em criar um pais independente chamado “Fordlandia” no Estado do Acre. A intencao dos Estados Unidos, alem de finalmente conseguir uma parte da amazonia, era ter um fornecedor vitalicio de borracha para sua industria automolistica. A presenca do governo brasileiro naquele Estado era muito deficiente, e por isso uma acao imediata deveria ser tomada. Garcia queria fazer parte da historia! Fechou o jornal com tanta forca que estracalhou o papel; mas por sorte ainda conseguiu ler o telefone de contato do anuncio. Nao perdeu um minuto. Telefonou e descobriu que haveria uma caravana de 10 onibus saindo no dia seguinte as 6 horas da manha. Pegou sua mochila, colocou seus itens pessoais, o Manifesto do Partido Comunista, separou seu jeans, sua camiseta vermelha do partido, escovou suas botas, e foi dormir. Na manha seguinte estava no onibus 4. No trajeto que demoraria 3 dias, descobriu que quase 90 por cento dos soldados eram cearenses, seringueiros, que tinha construido suas vidas no Acre, e que na verdade estavam voltando, porque tinham sido expulsos pelos guerrilheiros. Garcia comecou a ficar interessado na vida daquelas pessoas, todas como ele, trabalhadoras, maos calejadas, caras enrrugadas; jovens velhos. Lutando pelo Brasil, ou simplesmente buscando um cantinho para trabalhar e uma casinha para criar a familia? Nao, nao pode ser assim, tao seco! Sem idealismo! Pensou logo o apaixonado comunista. Comecou a pensar em uma maneira de como convencer aquelas pessoas todas de que existe algo maior, mais grandioso, naquela viagem. Nao podia ser somente “aquilo”. Afinal de contas uma “Gringolandia” estava a ponto de ser instaurada! Se fosse pelo menos uma revolucao comunista! De qualquer forma, sao nesses momentos de espirito guerreiro que a uniao e’ propagada, e por isso deveria haver um idealismo para manter a coesao, pensou Garcia. E esse papel estaria nas maos do Comunismo Brasileiro! Tinha 72 horas de estrada para tentar acender a chama da "paixao". No primeiro dia, ressaltou a importancia e o “por que” deles estarem indo ate’ tao longe em nome do Brasil para proteger e reassegurar o territorio em perigo. A presenca dos soldados da borracha e tropas federais estaria confrontando e expulsando os guerrilheiros para reafirmar a forca brasileira. Depois desse momento, o governo certamente estaria estimulando o financiamento de terras, a juros baixos, para aumentar a ocupacao territorial e aumentar a presenca brasileira no local. Garcia tinha que dar todas essas explicacoes nas paradas dos onibus para que todos pudessem ouvi-lo. Pareciam estar se interessando bastante. Estavam preparados para o segundo dia, pensou. Na parada do posto de gasolina, pediu ao motorista se poderia prolongar-se um pouco para poder falar com todos os soldados dos outros onibus tambem. Comecou seu discurso: meus camaradas, vamos ao Acre para expulsar os guerrilheiros contratados pelos gringos! E faremos com muita coragem, pois todos estamos unidos com unico objetivo: vencer ou morrer! Ouviu-se em unissono: Viva o Acre!!! Garcia desceu do palanque improvisado, e falando em voz menos impolgada comecou a explicar que depois desse primeiro momento, o governo estaria taxando tudo e todos para recuperar o tempo perdido naquele pedaco de terra esquecido. Ate mesmo porque seria condicao necessaria para mante-los protegidos; ou seja, para manter uma forca militar permanente na area. Foi ao banheiro. Comecou uma movimentacao estranha como se as pessoas tivessem sido pegas de surpresa. Estavam agora, um pouco perdidas… Mas ate’ ai tudo bem, pois afinal de contas, os impostos foram feitos para serem retribuidos em forma de bens publicos. Qual o problema? O papel do Estado e’ servir ao povo. E precisa de dinheiro para isso, pensaram as pessoas. Desde que seja justo, disse um mais empolgado. Todos entraram nos onibus e prosseguiram a viagem. Depois de 60 horas de viagem, antes de chegar no destino final, Garcia solicitou ao motorista uma parada. Camaradas, vamos ao Acre expulsar os guerrilheiros e impedir os americamos de instaurar a “Gringolandia” em nosso territorio! Juntos venceremos! Todos unidos em um unico objetivo: vencer ou morrer! Ouviu-se em unissono: Viva o Acre!!!! Novamente Garcia desceu do palanque improvisado e comecou a explicar em voz firme o perigo dos guerrilheiros vencerem. A etapa seguinte, se a “Fordlandia” fosse instaurada, seria a mais terrivel, pois os seringueiros teriam que vender suas forcas de trabalho para as grande empresas do local para sobreviver, e serao alienados. Nao trabalhariam mais para eles mesmos, mas para os grandes capitalistas! Depois desse ultimo discurso, sentiu que conseguiu finalmente apaixonar aquelas pessoas. Chegaram no Acre e arrasaram com os guerrilheiros em 5 dias. Como recompensa, o governo brasileiro ofereceu para cada soldado uma casa e um emprego. Um ano depois, ja’ no ritmo normal de sua vida de cobrador de onibus, ao chegar em casa, percebe em sua caixa de correspondecia um cartao postal com uma foto de uma linha de producao: Prezado amigo, no final, a grande empresa Ford acabou se instalando aqui, pois o governo brasileiro lhe concedeu isencao fiscal por 20 anos. Mas olha, acho que voce estava enganado sobre essa incrivel empresa. Antes eu era seringueiro, e ganhava pouquissimo. Agora, estou muito bem empregado e ganho 100 dolares por mes para trabalhar 50 horas por semana!

9.4.09

Semana de Arte Moderna

Era um momento especial na historia brasileira que ficaria marcado para o resto de nossas vidas, ou pelo menos, pelo resto das vidas de um grupo seleto de pessoas que se diziam "modernas" e "autenticas": a Semana de Arte Moderna. Garcia tinha sido convocado pelo Partido para participar como "observador", pois no dia primeiro de maio estariam inaugurando o Comite Central Comunista no Brasil. Como a verba era curta para mandar um membro do Partido para a patria-mae fundadora do movimento revolucionario, Uniao Sovietica, e ate' entao, no pais nao existia nenhum ponto de referencia comunista, os camaradas ainda tinham que aprender com os burgueses brasileiros a instaurar um movimento "internacionalista". Que triste fim, imaginou de imediato o Garcia. Principalmente quando recebeu as instrucoes previas para se preparar, 5 dias antes do coloquio. Tinha que pesquisar sobre a vida do diplomata Graca Aranha, e ler seu livro chamado Canaa, pois ele estaria fazendo o discurso de abertura. Entretanto, no percurso de suas leituras foi descobrindo que tudo parecia mais internacionalista do que aparentava; o veu nacionalista era o lado populista, e como sempre, todo movimento - e o burgues nao poderia deixar de ser diferente - era, pelo menos, universalista. O Garcia se colocou na pele daquele diplomata engravatado que passou mais da metade de sua vida fora do pais, que escreveu um fabula de um imigrante alemao no sudeste do pais, e que vem fazer um discurso de abertura da "Semana de Arte Moderna", falando de "Antropofagia", e sei la' mais o que... Dizer que o Brasil tem que se voltar para "dentro de si", criar vontade propria, etc.... Existe mais contradicao do que isso?! Garcia olhou a programacao na cartilha e viu algo interessante: um tal de "coffee break". Opa, deve ser comida com cafe'. Vou encher a barriga e sair fora, pois estou de saco cheio desse papo de "Arte Moderna". Saiu do Teatro e avistou um jornal no chao: estava escrito 1922.

Personagens

Cassandra: tradutora que trabalha para importante editora especializada em livros de biografia e historia. Ela e' o tipo de pessoa que nao consegue se encaixar numa vida social normal; encontra, muitas vezes, no isolamente, sua fulga, e nos livros seu refugio.

Cassandra: a translator who works for an important publisher specialized in biography and history books. She is the kind of person who cannot fit in a normal social life; she finds, most of the times, in self-confinement,
her scape, and in books, her refuge.
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Napo: ex-filho de militar e roteirista de cinema cuja vida foi acabada pelo alcool e drogas. Esta' em constante conflito interno consigo mesmo: perturbado, afetado. Atualmente, vive de pensao do sindicato.

Napo: ex-military-kid and film screenwriter whose life was ruined by alcohol and drugs. He seems to be always in a long-lasting and permanent state of self-conflict. Nowadays, he lives from the Union's financial support.
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Garcia: cobrador de onibus e membro ativo do partido comunista. Possui ampla biblioteca particular sobre o tema, tornando-se inclusive referencia partidaria. As vezes, seu fanatismo torna-se tao paradoxo que passa a ser ate' mesmo romantico.

Garcia: bus driver and member of the communist party. He became a political reference in the party due to the large collection of books in his private library. Such a fanatic with paradoxical ideas that sometimes he is called "The Romantic".
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Franz: editor de guia artistico-cultural. Participa de projetos pelo mundo afora, geralmente patrocinado por ONG's para atualizar e trocar experiencias. Seu constante desafio e' nao deixar transparecer sua falta de sentimento "nacionalista".