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12.2.10

Manual de Sabotagem: limpeza

A preocupacao de todo empresario do ramo de alimentacao nao e' necessariamente com a limpeza, mas com a fiscalizacao da vigilancia sanitaria, o que pode ocasionar a perda de sua licenca. Entao, tenta manter o padrao exigido atraves do treinamento no dia-a-dia de seus funcionarios sobre como e o que deve ser limpo. O desempenho das tarefas e' um processo repetitivo que aos poucos vai sendo assimilado, e por fim, se torna rotina. Ah, isso e' muito facil, e' trabalho bracal mesmo, pensava Garcia. E mais uma vez, como a confianca mutua ja' era denominador comum, o patrao nao realizava uma fiscalizacao tao rigida sobre seu cozinheiro. Enquanto estivesse aparentemente ganhando dinheiro, certas prioridades passavam para o segundo plano. E como a fiscalizacao da vigiliancia sanitaria era um acontecimento virtual, Garcia poderia relevar a limpeza. Ela seria feita, mas somente para os "olhos" do patrao.

10.2.10

Manual de Sabotagem: introdução

A introducao de maquinas nas fabricas durante a revolucao industrial foi um processo lento e doloroso para os trabalhadores. Primeiro porque substituia o trabalho manual pelo mecanico, e principalmente porque diminuia drasticamente o numero de trabalhadores nas fabricas. Isso gerava mais lucros para os capitalistas, e tambem lhes dava mais poder de compra de "estoque humano". Ou seja, os empresarios podiam pagar menos, logicamente porque a oferta de trabalho estava diminuindo. A mesma fabrica que antes empregava 500 trabalhadores, agora emprega somente 250. O que faziam os desempregados, entao? Caiam literalmente na rua da amargura. Dai' surgiu a palavra "sabotagem" que e' derivada de "sabot", tamanco ou sapato em frances. Esse movimento surgiu inesperadamente na Franca, quando os trabalhadores alienados jogavam seu sapatos na engrenagens das maquinas, provocando a quebra, e logico, perda de lucros. Garcia foi convocado para fazer um servico de sabotagem moderna, ou guerra de inteligencia. Teria que trabalhar na cozinha de um restaurante durante um ano para escrever um manual de como acabar com o lucro alheio atraves da exploracao capitalista. A intencao era fazer um compendio de acoes pontuais para destruir um empreendimento capitalista, no caso um restaurante. Essa ideia era da ala mais radical do partido. Garcia foi contratado para trabalhar como cozinheiro. O plano seria primeiramente ganhar a confianca do patrao. Isso seria ate' natural, pois dentro do processo de supervisao de seu trabalho, ele estaria dando sempre o exemplo de perfeicao. Por exemplo, a condicao sine qua non de qualquer empresario e' a maximizacao dos lucros, cortando os custos. Na preparacao de sanduiches existia uma tabela. Tres roledas de tomate, uma colher de cha de maionese, duas fatias de bacon, e uma folha de alface. A confianca seria justamente conquistada porque o patrao ao fiscalizar o trabalho de seu empregado, ficava impressionado com o desempenho perfeito da tarefa. Depois de algum tempo, quando ja' criado o elo mutuo, a fiscalizacao que antes se fazia necessaria, agora nao existe. Por que? Ele e' exemplar! Pois a partir dai' que o terrorismo comecava. A unica condicao do manual seria que todo ato terrorista seria provocado em beneficio do consumidor. Aquele mesmo sanduiche que tinha um custo de producao de 5 Reais com as mesmas rodelas de tomate, continuava o mesmo preco. Mas, agora, poderia variar de acordo com o humor do terrorista. Mas como quase sempre estava mal-humorado, agora, o mesmo valor acomodava 8 rodelas de tomate, 4 fatias de bacon, 1 colher de sopa de maionese, e 3 folhas de alface. Virava um super sanduiche pelo mesmo preco final ao consumidor. O patrao veria seus clientes felizes, sempre comprando mais, mas nao entenderia porque seus lucros estariam diminuindo! O exemplo acima citado foi somente uma das acoes pontuais que Garcia estaria realizando para escrever o "Manual de Sabotagem" do Partido Comunista. Outras serao desenvolvidas no decorrer de seu trabalho naquele restaurante.

24.10.09

Wonderland X Neverland

Garcia abriu o jornal de domingo na secao dos classificados e viu dois anuncios: um dizia para vir morar na "Neverland" e o outro na "Wonderland". O primeiro era tentador, entretanto exigia muita motivacao, e esforco para iniciar as obras. Era um pais distante que buscava imigrantes para povoar seu territorio, e para tanto, oferecia 16 hectares de terra, vias publicas, iluminacao e estradas de ferro ja' montadas para o abastecimento dos grandes centros. O restante seria pago com os impostos publicos gerados pela receita do trabalho humano justamente advindo desse loteamento. Nos primeiros 5 anos, o imigrante teria somente o direito de posse sobre o terreno, e depois somente seria seu proprietario. O trem passava uma vez por semana para recolher a producao local, e levar ate' a capital do Estado. A estrada de ferro havia sido privatizada ha' 5 anos, e portanto, o escoamento da producao nao sofria interrupcoes ja' ha' algum tempo. O "Neverland Bank" oferecia emprestimos a longo prazo com taxas fixas. Aos poucos foi-se formando uma comunidade de nome estranho, Quakers, que foi, inclusive construindo suas proprias escolas. Depois chegava a vez da "Wonderland". Era um pais das mesmas proporcoes, mas com incentivos distintos. O imigrante recebia uma doacao vitalicia de um latifundio. Em contrapartida, teria que fazer um investimento inicial para comecar , de imediato, uma producao em grande escala e em sistema de "plantation". O banco local oferecia emprestimos a juros baixos, e o pagamento poderia ser feito tanto em especie como em "commodities". Nessa modalidade, o novo residente deveria estar preparado para seu novo sistema produtivo e tudo seria em grandes proporcoes, alem, claro, de voltado para o mercado exterior. Portanto, como quase toda producao seria voltada para fora, o Governo ofereceria milhares de incentivos fiscais para a importacao de produtos, inclusive humanos (escravos). Nao haviam estradas pavimentadas, iluminacao publica, nada. Os navios ancoravam nos portos uma vez por mes para recolher a producao local e trazer os produtos importados para abastacer as fazendas. Apos 10 minutos cocando a cabeca, Garcia pegou o jornal e foi correndo ate' o comite central do Partido Comunista. Aquilo tudo foi demais para sua inteligencia! Queria saber se algum daqueles paises teria alguma caracteristica "socialista" que poderia ser utilizada para desencadear uma revolucao, pois entao, estaria imediatamente emigrando para um deles para incitar as massas populares! Ele chegou no velhinho barbudinho, presidente do partido, sentado, que respondeu: pega um cidadao de "Neverland" e coloca para passar uma temporada em "Wonderland" que ele vai te dizer em dois tempos...

20.7.09

Os Novos Ricos

Era uma tarde de quinta-feira quando Garcia recebeu um telefonema do Partido. Foi convocado para fazer uma pesquisa sobre a ascensao dos Novos Ricos. Mas quem sao os Novos Ricos? Pensou de imediato. Se fossem pelo menos os "Velhos Ricos", a escoria da sociedade, filhos da corrupcao, aqueles que enriquecem levianamente, seria muito mais facil identifica-los. Mas nao, o Partido deixou bem claro: queremos os novos! Foi ate' seu quarto para colocar a vestimenta e sair a campo: calca jeans, botas pretas e camiseta vermelha. A pesquisa tinha que ser completa, e por isso, comecar por baixo. Nada melhor do que o figado! Foi ate' as lojas de bebidas alcoolicas e descobriu que a vendas de vinhos e espumantes decuplicaram nos ultimos 5 anos. Nos restaurantes, o fato se confirmou. Depois, resolveu ir mais adiante ir passar no maior hospital privado da cidade e perceber que aumentou o registro de adolescentes em coma alcoolica. Garcia nao parava de tomar notas, pois no final teria que fazer um relatorio ao Comite Central. Caminhado dentro do hospital, ate' pensou em passar no setor de psiquiatria, mas ai' parou, pestanejou, e continuou. Os dados de suicidio precisaria, provavelmente, somente daqui uns 50 anos quando o ciclo economico entrasse em queda e os "novos ricos" fossem rebaixados de classe social. Na volta, passou numa livraria e comprou o livro "A Era dos Extremos" de Eric Hobsbawn para acrescentar a biblioteca do Partido.

30.5.09

Os Soldados da Borracha e a Fordlandia

Garcia abriu o jornal de domingo e encontrou uma chamada que parecia feita para ele, pensou o entusiasmado rapaz. Buscava, melhor dizendo, recrutava pessoas interessadas em juntar-se aos “Soldados da Borracha”. Esses paramilitares foram convocados pelo governo brasileiro para combater grupos guerrilheiros patrocinados pelos americanos, interessados em criar um pais independente chamado “Fordlandia” no Estado do Acre. A intencao dos Estados Unidos, alem de finalmente conseguir uma parte da amazonia, era ter um fornecedor vitalicio de borracha para sua industria automolistica. A presenca do governo brasileiro naquele Estado era muito deficiente, e por isso uma acao imediata deveria ser tomada. Garcia queria fazer parte da historia! Fechou o jornal com tanta forca que estracalhou o papel; mas por sorte ainda conseguiu ler o telefone de contato do anuncio. Nao perdeu um minuto. Telefonou e descobriu que haveria uma caravana de 10 onibus saindo no dia seguinte as 6 horas da manha. Pegou sua mochila, colocou seus itens pessoais, o Manifesto do Partido Comunista, separou seu jeans, sua camiseta vermelha do partido, escovou suas botas, e foi dormir. Na manha seguinte estava no onibus 4. No trajeto que demoraria 3 dias, descobriu que quase 90 por cento dos soldados eram cearenses, seringueiros, que tinha construido suas vidas no Acre, e que na verdade estavam voltando, porque tinham sido expulsos pelos guerrilheiros. Garcia comecou a ficar interessado na vida daquelas pessoas, todas como ele, trabalhadoras, maos calejadas, caras enrrugadas; jovens velhos. Lutando pelo Brasil, ou simplesmente buscando um cantinho para trabalhar e uma casinha para criar a familia? Nao, nao pode ser assim, tao seco! Sem idealismo! Pensou logo o apaixonado comunista. Comecou a pensar em uma maneira de como convencer aquelas pessoas todas de que existe algo maior, mais grandioso, naquela viagem. Nao podia ser somente “aquilo”. Afinal de contas uma “Gringolandia” estava a ponto de ser instaurada! Se fosse pelo menos uma revolucao comunista! De qualquer forma, sao nesses momentos de espirito guerreiro que a uniao e’ propagada, e por isso deveria haver um idealismo para manter a coesao, pensou Garcia. E esse papel estaria nas maos do Comunismo Brasileiro! Tinha 72 horas de estrada para tentar acender a chama da "paixao". No primeiro dia, ressaltou a importancia e o “por que” deles estarem indo ate’ tao longe em nome do Brasil para proteger e reassegurar o territorio em perigo. A presenca dos soldados da borracha e tropas federais estaria confrontando e expulsando os guerrilheiros para reafirmar a forca brasileira. Depois desse momento, o governo certamente estaria estimulando o financiamento de terras, a juros baixos, para aumentar a ocupacao territorial e aumentar a presenca brasileira no local. Garcia tinha que dar todas essas explicacoes nas paradas dos onibus para que todos pudessem ouvi-lo. Pareciam estar se interessando bastante. Estavam preparados para o segundo dia, pensou. Na parada do posto de gasolina, pediu ao motorista se poderia prolongar-se um pouco para poder falar com todos os soldados dos outros onibus tambem. Comecou seu discurso: meus camaradas, vamos ao Acre para expulsar os guerrilheiros contratados pelos gringos! E faremos com muita coragem, pois todos estamos unidos com unico objetivo: vencer ou morrer! Ouviu-se em unissono: Viva o Acre!!! Garcia desceu do palanque improvisado, e falando em voz menos impolgada comecou a explicar que depois desse primeiro momento, o governo estaria taxando tudo e todos para recuperar o tempo perdido naquele pedaco de terra esquecido. Ate mesmo porque seria condicao necessaria para mante-los protegidos; ou seja, para manter uma forca militar permanente na area. Foi ao banheiro. Comecou uma movimentacao estranha como se as pessoas tivessem sido pegas de surpresa. Estavam agora, um pouco perdidas… Mas ate’ ai tudo bem, pois afinal de contas, os impostos foram feitos para serem retribuidos em forma de bens publicos. Qual o problema? O papel do Estado e’ servir ao povo. E precisa de dinheiro para isso, pensaram as pessoas. Desde que seja justo, disse um mais empolgado. Todos entraram nos onibus e prosseguiram a viagem. Depois de 60 horas de viagem, antes de chegar no destino final, Garcia solicitou ao motorista uma parada. Camaradas, vamos ao Acre expulsar os guerrilheiros e impedir os americamos de instaurar a “Gringolandia” em nosso territorio! Juntos venceremos! Todos unidos em um unico objetivo: vencer ou morrer! Ouviu-se em unissono: Viva o Acre!!!! Novamente Garcia desceu do palanque improvisado e comecou a explicar em voz firme o perigo dos guerrilheiros vencerem. A etapa seguinte, se a “Fordlandia” fosse instaurada, seria a mais terrivel, pois os seringueiros teriam que vender suas forcas de trabalho para as grande empresas do local para sobreviver, e serao alienados. Nao trabalhariam mais para eles mesmos, mas para os grandes capitalistas! Depois desse ultimo discurso, sentiu que conseguiu finalmente apaixonar aquelas pessoas. Chegaram no Acre e arrasaram com os guerrilheiros em 5 dias. Como recompensa, o governo brasileiro ofereceu para cada soldado uma casa e um emprego. Um ano depois, ja’ no ritmo normal de sua vida de cobrador de onibus, ao chegar em casa, percebe em sua caixa de correspondecia um cartao postal com uma foto de uma linha de producao: Prezado amigo, no final, a grande empresa Ford acabou se instalando aqui, pois o governo brasileiro lhe concedeu isencao fiscal por 20 anos. Mas olha, acho que voce estava enganado sobre essa incrivel empresa. Antes eu era seringueiro, e ganhava pouquissimo. Agora, estou muito bem empregado e ganho 100 dolares por mes para trabalhar 50 horas por semana!

9.4.09

Semana de Arte Moderna

Era um momento especial na historia brasileira que ficaria marcado para o resto de nossas vidas, ou pelo menos, pelo resto das vidas de um grupo seleto de pessoas que se diziam "modernas" e "autenticas": a Semana de Arte Moderna. Garcia tinha sido convocado pelo Partido para participar como "observador", pois no dia primeiro de maio estariam inaugurando o Comite Central Comunista no Brasil. Como a verba era curta para mandar um membro do Partido para a patria-mae fundadora do movimento revolucionario, Uniao Sovietica, e ate' entao, no pais nao existia nenhum ponto de referencia comunista, os camaradas ainda tinham que aprender com os burgueses brasileiros a instaurar um movimento "internacionalista". Que triste fim, imaginou de imediato o Garcia. Principalmente quando recebeu as instrucoes previas para se preparar, 5 dias antes do coloquio. Tinha que pesquisar sobre a vida do diplomata Graca Aranha, e ler seu livro chamado Canaa, pois ele estaria fazendo o discurso de abertura. Entretanto, no percurso de suas leituras foi descobrindo que tudo parecia mais internacionalista do que aparentava; o veu nacionalista era o lado populista, e como sempre, todo movimento - e o burgues nao poderia deixar de ser diferente - era, pelo menos, universalista. O Garcia se colocou na pele daquele diplomata engravatado que passou mais da metade de sua vida fora do pais, que escreveu um fabula de um imigrante alemao no sudeste do pais, e que vem fazer um discurso de abertura da "Semana de Arte Moderna", falando de "Antropofagia", e sei la' mais o que... Dizer que o Brasil tem que se voltar para "dentro de si", criar vontade propria, etc.... Existe mais contradicao do que isso?! Garcia olhou a programacao na cartilha e viu algo interessante: um tal de "coffee break". Opa, deve ser comida com cafe'. Vou encher a barriga e sair fora, pois estou de saco cheio desse papo de "Arte Moderna". Saiu do Teatro e avistou um jornal no chao: estava escrito 1922.

25.1.09

A Virgula


Franz acordou disposto a descobrir o que faria, ou melhor, o que precisaria um homem para se tornar realizado na vida. Estava caminhando em direcao ao auditorio da Faculdade de Economia da Universidade de Brasilia (UnB), pois ali assistiria uma palestra sobre a Era do Capital de Eric Hobsbawn. Nao tinha muito tempo para chegar ao "ponto final", mas na pior das hipoteses, pensou consigo mesmo, o coloquio lhe traria inspiracao. Realmente, ja' tinha atravessado a L2, e nada aconteceu. Entretanto, pensou no tema que move a humanidade: trabalho. Claro! Todos precisamos de trabalho! Estava indo na direcao certa. Mas tinha que delimitar sua linha de pensamento. Ele, por exemplo, para ser feliz, precisaria de uma familia, de uma casa, um carro... Como qualquer pessoa comum. E para ter tudo isso precisaria ter um trabalho. Se nao tiver um trabalho "primeiro", como vai ganhar dinheiro, e ter o resto, sustentar a familia?!?! Pois bem, para ter uma familia, Franz tinha que ganhar o suficiente para sustenta-la, e se sobrasse alguma coisa, poderia comprar um carro, e fazer um emprestimo para uma casa. Era isso que ele queria? Hobsbawn disse, como todos os outros comunistas, que o trabalhador foi extirpado do nucleo familiar. Separado, solitario, voltou a ser Franz. Um barbudinho levantou no meio do auditorio lotado de estudantes e disse em alto e bom tom: voces esqueceram da VIRGULA! Virou-se, deu as costas ao palestrante, e saiu correndo. Todos ficaram, literalmente, boquiabertos.... Franz, chegou em casa, abriu o armario, vestiu seu par de botas, encheu o peito de ar e foi trabalhar. Mas trabalhar aonde se ele nao tinha um emprego convencional, ele pensou consigo mesmo novamente?!?! Bem, as botas poderiam lhe trazer boa sorte, quem sabe. Na Era do Capital, o autor explica certas simbologias e codigos sociais como, por exemplo, o chapeu do trabalhador, a calca, as botas, etc... Franz podia nao ter tudo o que e' esperado de um trabalhador tipico assalariado, mas pelo menos tinha suas botas.

27.12.08

Republica Guarani

O marido, a mulher, as criancas; todos dormian juntos no mesmo comodo, muitas vezes ate' abracados na mesma cama. Algo normal quando existe uniao e amor no nucleo familar. O quintal era cenario de revista de jardinagem, ou do estilo faca "voce mesmo". Era quase uma economia de subsistencia, nao fossem as roupas, sapatos, itens de higiene pessoal, bens de primeira necessidade, resultado do capitalismo primitivo. Alfredo e sua esposa nao dependiam, por exemplo, de nenhum meio de transporte. Alias, por viverem absolutamente do essencial, nao precisavam de muita coisa do que ja' tinham. Por isso, nao tinham muitos conflitos existenciais, ou angustias em suas vidas. Parece complicado, mas a idea de superfulo nao fazia parte de seus imaginarios. Ele trabalhava segunda e terca na feira livre local. Ela trabalhava quarta e quinta no mercado de artesanato. Para ambos, o restante da semana era tambem muito feliz e consistia em tarefas como ajudar as criancas no dever de casa, cuidar da horta, do galinheiro, da vaca leiteira, fazer pequenos reparos, fazer artesanato, rendas, etc. Outro dia, sua filha chegou do colegio, e perguntou ao pai se ele ja' tinha ouvido falar de um filosofo chamado Platao, e o que tinha escrito sobre uma tal de "Republica". Um pouco preocupado, pois sua filha poderia estar aprendendo coisas erradas, queria saber do se tratava essa questao. A menina de 10 anos disse que o filosofo previu que a divisao do trabalho em tarefas e papeis especificos traria maior produtividade, e com isso cada pessoa poderia, dessa forma, dedicar-se a uma unica atividade, e com o fruto de seu trabalho, trocar e obter o restante para sobreviver. Alfredo nao conseguia acreditar no que estava ouvindo, especificamente saindo da boca de sua filhinha de 10 anos de idade! A menina, certamente, estava se rebelando contra o sistema milenar praticado de geracoes em geracoes, desde seus mais antigos antepassados! Ja' estava visualizando cavalos alados com guerreiros em suas armaduras sagradas trazendo violencia, corrupcao, inveja, e pior, a sifilis! Mais ainda, trazendo fabricas com linhas de producao em larga escala, pagando salarios, sindicalizando os trabalhadores... Alfredo estava agitadissimo, saiu correndo, e foi comprar um "Mac Lanche Feliz" para sua filha.

17.12.08

Remedio anti-recessao


Teoricamente, recessao vem antes de depressao. Pelo menos, quando dentro do campo de Economia, assim falam os economistas. E' sempre bom estar atualizado, e o problema na pauta de toda parada de onibus e' a crise economica. Existem dois tipos de respostas: aquela do aposentado de fila de banco que pensa que sabe tudo e a do economista de carteirinha. Vamos recorrer a segunda opcao. Qual seria o remedio de Keynes para uma recessao? Ele e' um economista pragmatico, e vai direto ao tema estatal: vamos construir estradas, fazer guerras, sei la', colocar o governo para gastar dinheiro e criar empregos do nada! Malthus e' mais realista, apesar de cruel. A medio prazo, para evitar a propagacao da recessao, instituiria decreto com cesta basica de um saco de batata de 10 kilos e 1 kilo de cafe' por mes para os trabalhadores. Veja o quadro Comedores de batata de Van Gogh! Cada qual tinha sua visao de como enfrentar a situacao. Entrou, Adam Smith, um tanto egoista, com um xicara de cha'. Ja' chegou dizendo: Eu acho que tem que ser cada um por si' , e dane-se o resto! Cada um que cuide do que e' seu, e ponto final. O que e' bom para mim, vai ser bom para todos, e se todos pensarem assim, as coisas funcionarao. Instituiria um decreto onde qualquer pessoa poderia se tornar um vendedor autonomo (ambulante), pois geraria mais impostos e acabaria com a ilegalidade do mercado informal. Nao se preocupem, pois no final a "mao invisivel" vai auto-regular tudo isso. De repente apareceu um barbudo chamado Karl Marx. Foi contra todos e tudo que havia sido dito anteriormente. Simplesmente disse que o problema nao era a recessao, mas sua origem, pois provinha de um sistema viciado, capitalista, e por isso deveria ser substituido. Todos ficaram boquiabertos... O que esse barbudo esta' querendo dizer? O velho acendeu o cachimbo, deu um gole no cafe', chamou todos para o lado de fora da loja e disse: Voces estao vendo esse "RECESSION PRICE $ 1.29"? Nao existe preco de recessao, pois o sistema capitalista "perfeito" nao pressupoe recessao. Pode implicar "dumping". O que nao acho que, necessariamente, a "Vanessa" esta' fazendo. 1 dolar ja' seria um preco razoavel, portanto, esses 29 centavos, ja' que estamos em Nova York, ou seria uma homenagem a Crise de 29, ou simplesmente a "mais-valia" mesmo. Uni-vos!

Personagens

Cassandra: tradutora que trabalha para importante editora especializada em livros de biografia e historia. Ela e' o tipo de pessoa que nao consegue se encaixar numa vida social normal; encontra, muitas vezes, no isolamente, sua fulga, e nos livros seu refugio.

Cassandra: a translator who works for an important publisher specialized in biography and history books. She is the kind of person who cannot fit in a normal social life; she finds, most of the times, in self-confinement,
her scape, and in books, her refuge.
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Napo: ex-filho de militar e roteirista de cinema cuja vida foi acabada pelo alcool e drogas. Esta' em constante conflito interno consigo mesmo: perturbado, afetado. Atualmente, vive de pensao do sindicato.

Napo: ex-military-kid and film screenwriter whose life was ruined by alcohol and drugs. He seems to be always in a long-lasting and permanent state of self-conflict. Nowadays, he lives from the Union's financial support.
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Garcia: cobrador de onibus e membro ativo do partido comunista. Possui ampla biblioteca particular sobre o tema, tornando-se inclusive referencia partidaria. As vezes, seu fanatismo torna-se tao paradoxo que passa a ser ate' mesmo romantico.

Garcia: bus driver and member of the communist party. He became a political reference in the party due to the large collection of books in his private library. Such a fanatic with paradoxical ideas that sometimes he is called "The Romantic".
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Franz: editor de guia artistico-cultural. Participa de projetos pelo mundo afora, geralmente patrocinado por ONG's para atualizar e trocar experiencias. Seu constante desafio e' nao deixar transparecer sua falta de sentimento "nacionalista".