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28.7.10

Data de aniversário

Em julho de 2010, Cassandra decidiu mudar um dado em seu perfil do "Facebook" para fazer um teste. Isso envolveria uma data. Nunca havia se preocupado com seu aniversario. Alias, nao queria divulgar para nao lembrar ou lembrarem que estava ficando velha. A verdade, tambem, e' que pouco lhe importava essas questoes comemorativas; pois sempre achou uma falta de espontaneidade alguem ter que parabenizar outra pessoa pelo seu dia. Que ridiculo! Pensava. Eram pequenos atos, lembrancas, elogios pontuais que demonstrariam sua importancia e apreco por alguem. Nao um "unico" parabens por uma data fixa. Quando ja' estava no dia 3, decidiu colocar seu aniversario para o dia 7. Chegando no dia 6 estava ansiosa na espera de receber diversas congratulacoes, desejos de boa saude, felicidade, amor, enfim todas aquelas "frases-feitas" que dao forma a convencao social de parabenizar alguem. Aquilo iria, certamente, massagear seu ego. No grande dia, onde estaria completando 35 anos, como queria que aparentasse, nenhuma, mas nenhuma mensagem lhe foi lancada. Quando chegou no dia 8, resolveu colocar seu aniversario para o dia 12. O dia chegou.... Sua lista de amigos era composta por 122 pessoas.

10.3.10

Decidir chorar

Dois pingos no chao. Cassandra estava olhando aquelas gotas de sal. Chegou mais um momento em que precisava tomar decisoes. Alias, a vida e' cheia delas. Aquelas que fazem sorrir e, outras, chorar. Sentada a mesa de um bar, estava tomando sua cerveja. Precisava estar entre pessoas para que lembrasse o quanto era solitaria. "Headphones" no ouvido, escutava a musica "Song to the siren" da trilha sonora do filme "Candy". Cabeca abaixada, olhando, resolveu tocar aquelas lagrimas; duas. Estava quase caindo, mas levantou-se! Saiu correndo ao banheiro, mais lagrimas estavam escorrendo. Fechou a porta no toalete e sentou. Uma, duas, tres, quatro, cinco, seus olhos jorravam. Suas maos tentavam segura-las, mas nao paravam. Precisou de meia hora para secar a enxurrada. Voltou ate' sua mesa. Seu mundo aparte, musical, lhe distanciava das pessoas. Podia enganar seu sentido auditivo... Mas continuava vendo. Fechou os olhos por um minuto, e quando abriu... Lagrimas de novo! Ah, quem vai se importar comigo? Pensou. A unica "interacao" que teria naquele momento, em breves palavras, tinha sido: "Garcom, uma cerveja. A mais barata." Depois, mais simples ainda: "Garcom, a conta." O resto seria uma moca chorando em uma mesa de bar... Quem vai se preocupar? Desde que eu pague a conta, nenhum conflito vai surgir, e muito menos alguem vai notar minha ridicula existencia. Mesmo assim, Cassandra estava imaginando o quanto lhe doia aquele breve contato com o "garcon". Decidiu ficar queimando a ponta de seus cabelos enquanto chorava...

5.1.10

Perder medos

Um livro ensinava uma forma de perder medos. Quebrar as fronteiras de seu mundo, sair de casa, do bairro, da cidade, e enfrentar o desconhecido sozinho. Para comecar a jornada, um lugar deveria ser escolhido aleatoriamente no mapa ha uma distancia, de no maximo 500 quilometros, que pudesse ser percorrida em onibus. O proposito era fazer com que a pessoa criasse auto-confianca, exatamente o que Cassandra queria para sua vida, na epoca com 13 anos de idade. Estava em quarentena devido a uma hepatite, e seu tempo era dividido entre refeicoes e leituras. Sua maior qualidade, alias, era manter o habito de ler sempre; devorava todo e qualquer livro que aparecesse em sua frente. Nesse dia, por acaso, encontrou um livro de psicologia na estante de seu pai. Behaviorismo, Gestalt, reforco positivo, negativo, era um mundo completamente novo. Mas o que lhe chamou a atencao foi  a parte que tratava da "perda de medos".

3.1.10

Morrer de amor

Cassandra estava muito, mas muito angustiada. Alguma coisa estava lhe tirando a concentracao, a visao distorcia, suas forcas desapareciam. Levantar da cama era algo extremamente dificil, pois seus bracos e pernas pesavam toneladas... Esse simples despertar, lhe custava no minimo duas horas ate' conseguir chegar ao banheiro. E depois? Pensava logo. "Tenho que reagir" era sua resposta imediata. Mas nao conseguia! Ter ido a privada foi o unico que suas forcas lhe permitiram. Voltou para a cama e encontrou o livro "Veronika decide morrer" de Paulo Coelho. A historia de uma moca que tenta se matar com overdose de comprimidos, mas nao consegue. Acorda em um hospital, e o medico vem lhe dar a noticia: a tentativa de suicidio tinha lhe trazido danos irreversiveis ao coracao, e por isso, tinha no maximo 5 ou 6 dias de vida. Vitoria! Foi a reacao de Veronika.

18.12.09

A perda de um amigo

Cassandra perdeu seu melhor e unico amigo aos 21 anos de idade. Foi um choque que lhe custou a visita a consultorios de um psiquiatra e uma psicologa durante um ano para tentar superar o trauma. Entretanto, continua nao entendendo muito bem o que passa na cabeca de alguem que tem psicose maniaco-depressiva. Talvez, a morte tenha sido um alivio de um sofrimento interior que carregava desde seu nascimento, um karma. A vida passa a ser um peso, nao porque ela seja sofrida, mas porque a nao-compreensao desse sofrimento torna-se uma batalha. Acabar com esse sofrimento significa vencer a batalha. O problema e' que para vence-la, a forma escolhida, para quem esta' doente, nao e' atraves de um meio, mas de um fim. O fim, muitas vezes, nessa logica, esta' na retirada da propria vida.

2.9.09

Ser assumida

Cassandra tomou uma decisao muitissimo importante. Algo que mudaria o rumo de sua vida. Talvez nao muito a forma como ela se enxergaria, mas como os "outros" a tratariam. No final das contas e' sempre assim, pois nao vivemos numa sociedade? Em ingles, o chamado "turning point". Resolveu se assumir. Ja' estava de saco cheio de viver se esquivando das pessoas, se escondendo para nao ter que passar por situacoes constrangedoras. Tipo, vou ali e ja' volto... E sumia. Enfim, tinha que encarar seu "problema" de forma saudavel e conviver com ele naturalmente. Para tanto, precisava marcar uma consulta com o Dr. Alfredo, seu medico ha' 2 anos. Era um rapaz novo, recem saido da residencia, eficiente e disposto. A decisao da moca, na verdade, partiu de sua sala de consulta, quando para lhe prescrever os remedios, pela primeira vez, teve que buscar informacoes na internet. A cena foi hilaria. A doente falando para o "ar", e o medico "vidrado" na tela do computador respondendo as perguntas em palavras monossilabicas... Entretanto, percebeu de longe o que aquele ser vestido de branco, Doutor de conhecimentos extraordinarios, escrevia em seu relatorio: paciente necessita de forte anti-psicotico. Aquilo havia acontecido ja' ha algum tempo atras, mas foi um acontecimento tao marcante que espetava a barriga de Cassandra; sempre. Pois bem, voltando a parte da consulta. Tinha que falar com o Dr. Alfredo. Aquilo nao poderia ficar assim: vou me assumir e pronto! Mas voce tem que dizer o que tenho! Cassandra estava quase surtando... Ja' sei; pensou de imediato. Vou dar um susto naquele Doutor. Pegou duas churrasqueiras, colocou no banheiro, fechou a porta, e telefonou para o Dr. Alfredo. A secretaria eletronica atendeu. Deixou a mensagem: Alo, aqui e' Cassandra, estou trancada no meu banheiro com duas churrasqueiras cheias de carvao queimando a todo vapor. Voce tem que me dizer o que tenho para eu me assumir, agora! Desligou o telefone.... 10 minutos depois, paramedicos ja' estavam no apartamento dela.

14.8.09

Chá de Amor

Mais uma noite acordada. Nada incomum para Cassandra. Mas dessa vez, alem da costumeira insonia, a moca estava extremamente carente. Muito, mas muito melancolica. Nao estava chorando, ainda. Lembrou da cancao "Miss Sarajevo", um dueto de Bono Vox com Luciano Pavarotti, e deu um soluco.... "Is there a time to turn to Mecca..." Tinha que acabar com aquilo. Precisava de amor! Ja' sei, vou ate' o supermercado comprar um cha'; pensou. 20 minutos depois ja' estava ela em frente a prateleira escolhendo o "melhor" entre os milhares. Pegou um de camomila e perguntou com olhar serio para a atendente: Por favor, esse tem "amor" nos ingredientes? Do outro lado do balcao, sem entender bulhufas, respondeu: Tenha paciencia! Pegue seu cha' e me deixe em paz! Ninguem entendia as necessidades de uma pessoa carente no meio da madrugada. Talvez, somente um abraco ajudasse. Uma palavra de afeto. Enfim, Cassandra voltou para casa, esquentou a chaleira, tomou sua erva e ficou esperando algum sentimento "aparecer". Deu outro soluco e lembrou de Roberto Carlos... "Voce e' meu amigo de fe', meu irmao camarada...". E assim passou toda a madrugada sem dormir. Alguns cochilos e' verdade. Lembrou que era sexta-feira; dia que costumava almocar na casa de sua avo'. Uma pessoa incrivelmente lucida, sincera e simples. 83 anos de idade. Expressao literal de "madre superior". La' estava Cassandra sentada ao lado de sua avo'-amiga-mae-tudo, conversando, admirando, almocando aquela comida tao simples saudavel e saborosa. Um momento como esse e' sempre guardado com muito apreco. As palavras de uma senhora de tanta idade, musicadas com tanta firmeza e lucidez, e' memoravel. No final da refeicao, aquela senhora elegante se levantou e trouxe um par de xicaras. Ela disse em seguida: "Minha filhinha, eu fiz esse chazinho para voce tomar. Voce parece estar muito cansada. Depois, va' se deitar, que eu arrumei sua cama, viu?" Lhe deu um beijo na testa, e ficou tomando seu cha' sorrindo para ela.

28.7.09

Paz Mental

Cassandra toma remedios controlados, e todo mes tem que ir a farmacia busca-los. Ja' esta' conhecida como "aquela" que toma uma dosagem alta. Semana passada, entretanto, teve uma reviravolta no seu estado de "espirito". Ela mesmo nao se entendia, mais ou menos como se o seu raciocionio nao acompanhasse sua fala, ou pior; as pessoas nao conseguiam lhe entender. Virou um bicho no meio da selva. Mas um bicho solitario, incomunicavel. A propria Torre de Babel. A culpa foi dela mesma. Guardava um vidrinho debaixo do traveseiro e toda noite quebrava a metade do comprimido. Ah, estou me sentindo melhor, e hoje vou tomar somente a metade, dizia para si mesma. E todo dia seguia a mesma rotina. O vidrinho estava quase cheio. Seu comportamento tambem. Cheio de coisas estranhas. Comecou a ficar "acelerada". Desconfiada de tudo e de todos. Precisava de cafe para, talvez, amortizar esse sentimento. E desse aceleramento e do fato de ninguem entende-la, a reacao em cadeia, que era comecar a "brigar" com tudo e todos por qualquer coisa. Seu refugio foi a escrita, pois a linguagem falada ja' nao mais lhe servia. Escreveu, escreveu e escreveu sem parar... Mas tantas palavras, que para alguns fizeram sentido, mas para outros, ficaram estremecidos. Uma dessas pessoas sugeriu que gostaria tanto, mas tanto mesmo, que ela encontrasse a paz que "estava buscando", e que para isso, se confortasse em Deus. Porque Deus era Todo-Poderoso e certamente lhe traria essa tranquilidade. Mas para isso, ela teria que se "abrir" para ele, bla, bla, bla... Ela tinha encontrado a paz! Abriu a caixinha e tomou os tres comprimidos de Seroquel e os dois de Topiramato. Sem quebra-los.

8.7.09

A língua dos marcianos

Cassandra acordou e olhou no espelho ja desconfiada que aquele seria um dia diferente. Na verdade, nao para ela, mas para os outros que nao a entendiam. E isso era frequente. O que acontece e' que haviam dias que eram piores que os outros. Ela tinha que ser esforcar "mais" para ser entendida, e isso lhe sugava muita energia no final do dia; chegava exausta... Como era dificil se comunicar. Pedir um simples copo d'agua, fazer-se inteligivel para um mortal do outro lado da linha de comunicacao, era um martirio, ou uma via de mao unica. Sem problema, estava disposta a enfrentar mais um dia de trabalho na imensidao urbana e frieza das pessoas. Entrou no elevador, e encontrou um sorridente casal do andar superior. Bom dia! A porta se fechou, sem resposta... Chegando na garagem, grita em alto e bom som: ate' logo! Queria so' confirmar.

31.5.09

My Bloody Valentine + Dormonid

Um mes depois da frustada tentativa de suicidio, ja' no seu apartamento em Brasilia, Cassandra recebeu um email: "Em todo Orkut, não é permitido incitação ao suicídio; seu perfil está banido da comunidade bipolar. Entre em contato por recado para sugestões ou reclamações. Guerreiro, Moderador." A moca frequentava uma comunidade chamada Transtorno Bipolar do Humor para trocar experiencias. Sua historia veio a torna-se publica na referida comunidade, mas por ironia do destino, causou sua expulsao, pois no entender do moderador, podia incitar os outros membros bipolares a cometer suicidio. Cassandra pensou: Nossa, que poder eu tenho. Incitar as massas? Eu so' queria me matar! Aquilo foi demais para ela. Queria somente ser deixada em paz. Depois, ficou com muita confusao mental, andando de um lado para outro dentro de seu quarto, sem parar por 1 hora, perdida no tempo e espaco. Tinha que espairecer, alienar-se desse mundo. Sempre mentalizava: "Quero ir, quero partir...". Para tanto, precisava escutar "My Bloody Valentine" e se entupir de sanduiche no "Sky's" da 306 Sul para se "auto-flagelar". A musica era o hino sagrado antes, durante, e depois do ritual de regressao de introspeccao mental para sentir-se mal e deprimida. Tinha que comer o maximo possivel, com muito gordura e oleo, pois tinha dois efeitos para denegrir mais ainda seu estado. Fazer-se e sentir-se gorda, fazer-se e sentir-se com a cara cheia de espinha no medio e longo prazo. Geralmente, os efeitos aconteciam de forma ate rapidas, pois ela sempre pedia porcoes extras de bacon, ovos fritos, queijo derretido, milk shake, etc. Depois de comer quantidades impressionantes para seu porte fisico, entrou no carro, e percorreu os 14 quilometros do eixao de norte a sul, suficientes para escutar as musicas "Come in Alone", "Only Shallow", e ficar repetindo a "When you sleep" do album "Loveless". Nao satisfeita, ou precisando de algo mais, parou na rua das farmacias e comprou uma caixa de Dormonid. Dizem que as coisas nao acontecem "assim", tao planejadas. Quando se tem a "predisposicao" para algo, "pode" acontecer cedo ou tarde. A questao esta nas maos dos medicos psiquiatras e dos medicamentos. E da forca do paciente tambem, em tentar lutar contra a doenca. Enfim, Cassandra, tinha uma receita no bolso e comprou sua caixinha. No trajeto de volta foi tomando comprimido por comprimido ate' terminar todas as cartelas, degustando a sensacao e a musica "Quando voce dorme". Chegou em casa, sozinha; fechou-se no quarto, de luzes apagadas.

13.5.09

Cockroaches: die!

Cassandra was in self-confinement. Her favorite solitude night for introspective readings was Saturday because she could concentrate better. She was exactly the kind of person who was always in paradox. She had to feel as someone sailing against the tide. She would not join the ranks and go partying. Nothing better than the combo film + book. The film was called "The Fly" by David Cronenberg and the book "The Metamorphosis" by Franz Kafka. That night was going to be a series of such traumatic and repulsive events that she would never forget it... From the entire film which may have been good or not, the only thing that she remembers is one scene where the main actor is seating at a counter drinking a cup of coffee. But it was not just a single cup of coffee. He needed more than the sugar that already came in it. So, the guy asked for more... But what happened is that the waitress drops some sugar on the guy's arm. But his skin starts to melt! So that was the film. "The metamorphosis" was more intense and remarkable. After one week closed up his room, the concerned mom goes to check if there is something wrong. Well, noboby can be that much in a room with no response. She grabbes an apple and goes to her son's bedroom. She opens the doors, but then... her eyes could not believe in what she was seeing! The back of a giant cockroach?!?!?! Actually, that "thing", insect, was still cracking, as her son was in process of mutation. First reaction, she threw the apple in his back!!!! And there was the fruit for the rest of Cassandra's horrible memories. Nothing could be worse than that, she thought for a while before going to bed. Time to sleep if she could; she was started to walk around the apartment. Then, she went to the living room and found a "Nature" magazine that a friend had forgot the night before. First page: How can a cockroach give you a nightmare? She grabbed the paper and took it to bed. At that night she learned that cockroaches climb up our bodies while we are sleeping until they reach our noses. Not only our beautiful noses, but the "orifices" and eat what they find in it. Hummm, they also like our lips, and that's why we can get herpes. No, enough!!!!!! She closed up the magazine and threw it on the floor! Jumped off her bed, and went to the bathroom. 20 minutes later, after brushing her teeth and washing up her face, she was back in bed. In the middle of the night, she woke up, there was "something" pinching her leg!! Cassandra could never read Kafka again.

18.4.09

O suicídio de Cassandra

Cassandra se matou. Deu certo. Tudo como planejado. Aconteceu numa tarde de Sao Paulo do dia 25 de Janeiro de 1992. Queria que acontecesse longe de casa, por isso escolheu o momento oportuno; um congresso de tradutores na capital paulista. Nao precisava de muita coisa na bagagem: uma caixa de tofranil, outra de rivotril, e uma de seroquel para rebater. Olhou na estante uma garrafa de 51 e acrescentou para ter o "cerol para passar na linha", como se diria quando era crianca. Chegando na cidade, imaginou como seria bom morrer naquela imensidao, talvez no anonimato. Nao muito diferente do que sua vida tinha sido ate' o momento. Simplesmente se jogar num mar aberto para ser abracada por um silencio acolhedor. Que bom, pensou. Encontrou um muro. Nele estava escrito: "See you soon". Isso escrito aqui? Pensou. Bem, alguem deve ter deixado para eu traduzir. Se ajoelhou ali mesmo e comecou a abrir as caixas e tomar o aguardente a goles de galope ate' termina'-lo. Ja' totalmente entorpecida, e cada vez mais deprimida com a situacao, nao satisfeita com a lentidao dos comprimidos, quebra a metade da garrafa no chao. A partir desse momento, a moca comeca a se talhar nos dois ante-bracos. Da altura do pulso, subindo ate' um certo ponto que de tanto sangrar, e ja' totalmente "virada", desmaia. Fica sangrando por mais 6 horas ate' finalmente morrer. Aquela tinha sido sua quinta tentativa de suicidio. Uma semana depois Cassandra acorda em um quarto sem ter a menor ideia de onde estava. Olha ao seu redor para analisar o ambiente e ve na mesinha de cabeceira um livro de Nietzsche: Vontade de Potencia. Ela estava em uma clinica psiquiatrica e o livro tinha pedido antes de receber eletrochoque e estar com a idade mental de uma crianca de 12 anos de idade. Seu suicidio teria acontecido se nao fosse "tentativa", por isso, esta' planejando o proximo.

14.3.09

Baratas: morram!

Cassandra estava na clausura. Sabado a noite, quando todos estavam se divertindo, ela resolveu fazer seu programa cultural solitario favorito. Geralmente, suas clausuras, ou reclusoes sociais eram justamente nesses momentos; se sentia totalmente fora de contexto, e automaticamente se alienava. Nada melhor do que o "combo" de fim de semana: filme + livro. O filme se chamava "A mosca" e o livro a "Metamorfose" de Franz Kafka. Essa noite foi uma sequencia "cultural" tao nojenta que marcou a vida da moça. O mais interessante e' que nessas horas, por melhor que o filme ou o livro sejam, o que ficou marcado na memoria foram as cenas mais fortes. No final, nao aproveitou nada, principalmente do livro... Da "mosca" lembra do homem sentado ao balcao de uma lanchonete que ao pedir cafe' ao atendente, nunca esta' satisfeito com a quantidade de açucar. Coloca mais, mais e mais... Depois sua pele derretendo, e a sequencia de nojeiras. Da "metamorfose", a cena marcante e' quando a mae se dirige ao quarto de seu filho para lhe levar uma maçã, mas e' surpreendida por um fenomeno. Ao abrir a porta encontra uma criatura metade humana, metade barata. Era seu fillho se transformando naquele inseto! De imediato joga a fruta naquela "coisa". Entretanto, a proxima cena e' a maçã pregada nas costas do menino! Bem, essa foi a lembranca que tirou do livro de Kafka; deve ser a degradacao humana. Ufa, terminada a sequencia cultural daquela noite, Cassandra vai se deitar. Mas antes disso, encontra um exemplar da revista Superinteressante. Uma reportagem sobre barata; so' pode ser perseguicao, pensou. A leitura realmente foi um aprendizado enorme. Principalmente saber que no periodo noturno, ou seja, quando dormimos, baratas caminham sobre nossos corpos ate' chegarem a nossas narinas para se alimentarem de nossas secrecoes e labios, e felizes, tambem dormirem. Nao! Fechou a revista foi escovar mais uma vez os dentes, lavar bem o rosto e se jogou na cama, bem fechadinha nas cobertas. No meio da madrugada, o pesadelo tornou-se realidade. Acordou de supetao, sentiu algo beliscando sua perna... nao! Era uma barata no meio do seu percursso! Regininha nunca mais conseguiu ler Kafka.

Personagens

Cassandra: tradutora que trabalha para importante editora especializada em livros de biografia e historia. Ela e' o tipo de pessoa que nao consegue se encaixar numa vida social normal; encontra, muitas vezes, no isolamente, sua fulga, e nos livros seu refugio.

Cassandra: a translator who works for an important publisher specialized in biography and history books. She is the kind of person who cannot fit in a normal social life; she finds, most of the times, in self-confinement,
her scape, and in books, her refuge.
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Napo: ex-filho de militar e roteirista de cinema cuja vida foi acabada pelo alcool e drogas. Esta' em constante conflito interno consigo mesmo: perturbado, afetado. Atualmente, vive de pensao do sindicato.

Napo: ex-military-kid and film screenwriter whose life was ruined by alcohol and drugs. He seems to be always in a long-lasting and permanent state of self-conflict. Nowadays, he lives from the Union's financial support.
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Garcia: cobrador de onibus e membro ativo do partido comunista. Possui ampla biblioteca particular sobre o tema, tornando-se inclusive referencia partidaria. As vezes, seu fanatismo torna-se tao paradoxo que passa a ser ate' mesmo romantico.

Garcia: bus driver and member of the communist party. He became a political reference in the party due to the large collection of books in his private library. Such a fanatic with paradoxical ideas that sometimes he is called "The Romantic".
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Franz: editor de guia artistico-cultural. Participa de projetos pelo mundo afora, geralmente patrocinado por ONG's para atualizar e trocar experiencias. Seu constante desafio e' nao deixar transparecer sua falta de sentimento "nacionalista".