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7.12.09

Não

Dizem que a palavra que mais escutamos desde nosso nascimento e' "nao". Comeca desde cedo. Uma das musicas de ninar de qualquer bebe em seu berco ja' transparece o ensaio sonoro para a palavra que fara' parte de seu vocabulario: "Na', Na', Nenem...". Depois de algum tempo, ja' mais grandinho, engatinhando, vai escutar o monossilabo completo: "Nao, menino! Nao toca nisso que nenem vai levar choque."

4.8.09

Amizade X Ostracismo

Mes passado Franz ficou chocado com a resposta de um amigo ao seu email de felicitacoes de aniversario. Dizia o seguinte: "Obrigado por ter lembrado do meu aniversario, você foi o unico. Valeuuuu Muito. Por isso que você é o meu melhor amigo. Um grande abraço do seu irmão." A resposta vinha de uma pessoa especial, amizade de exatos 22 anos. Por isso a palavra "irmao" vinha tambem acompanhada com muito carinho. Essa pessoa significa muito para ele e a distancia se encurtava muito, mas muito mesmo, quando ambos sabiam que o sentimento de amizade era reciproco. E isso era o que importava. Entretanto, Franz lembrou de uma palavra e de um personagem da historia brasileira: Ostracismo e Lucio Costa. Talvez, os unicos, que realmente o reverenciem pela grandiosidade de sua obra, sejam alguns estudiosos paisagistas e arquitetos, pois de resto, a perola foi esquecida dentro da ostra. O problema de Franz e' que ele pensava que seu amigo era "especial" para certos camaradas tambem. Claro que nao e' um simples "feliz aniversario" que vai dizer "o que" e' ser amigo ou nao. Mas estamos tratando da "simbologia" do ato. Esse amigo especial e "unico", por ironia do destino era aquele que lembrava de telefonar para todos os outros no dia do aniversario... Por que sera' que somente lembramos "das" coisas importantes na nossa vida e apagamos as outras? O apelido dele e' Cebola. Nasceu no dia 02 de julho de 1962.

8.6.09

Cegueira, parte dois

Na manha seguinte, Franz estava sem orientacao, sem nocao de espaco. Talvez a cegueira de um dia tenha lhe deixado assim? Ainda deitado na cama, nao sabia onde estava a parede, a porta, o abajur, nada. Nao queria abrir os olhos e descobrir que nao estava mais cego ou que a parede tinha mudado de lugar. Talvez porque nao queria voltar a sua terra natal? Que nunca foi natal? Mas seu outro sentido estava lhe chamando. Escutava um ruido. Onde estava? Foi abrindo de devagar, e um feixe de luz entrando, quando no canto do quarto avistou um ser grande, de costas, de saias, bracos gordurosos, cabelos assanhados. Imediatamente fechou os olhos, pois aquele "ser" poderia lhe atacar se desconfiasse que estivesse acordado. Mais uma fisgada no olhar e descobriu que "aquilo" estava arrumando suas roupas intimas no armario: meu Deus, era a empregada domestica! Acabava ali sua vida privada; assim aconteciam as coisas no Brasil. A fronteira entre o publico e o privado era muito sutil. Ele tinha que se ajustar ao novo contexto. Entretanto, esse seria seu grande desafio, pensou. Depois de se recuperar do susto, conseguiu se levantar e tomar banho. Nao que tudo aquilo fosse anormal para ele, mas pelo contrario, tinha perdido o habito, o costume... Chegou na cozinha, a mesa estava estilo hotel cinco estrelas. Bem, afinal de contas estava visitando seus sogros e talvez quisessem dar uma boa impressao. Todos chegaram. Comecou o tiroteio. De onde vc eh, o que vc faz, quanto vc ganha, onde vc mora, qual o seu carro, qual a sua estirpe, e ai por diante. Quando nao perguntadas diretamente, indiretamente. Quando nao perguntadas seriamente, perguntadas com risadinhas nas entrelinhas. Quando nao perguntadas respeitosamente, perguntadas pejorativamente. Quando nao perguntadas na Rosa dos Ventos, ja' na dicotomia Norte-Sul, ou diria Nordeste-Sul, Paraiba-Sulista, e ai' por diante. Agora sim, Franz tinha certeza que voltou a enxergar. Pegou suas malas e foi direto ao aeroporto. Precisava ir para longe do Brasil.

26.3.09

Cegueira

Franz esta' pensando em escrever um livro. Quer contar como passar por 5 faculdades dos mais variados campos possiveis em 3 paises diferentes durante 15 anos. Ele sempre achou que poderia "tirar" um pouquinho de experiencia de vida por onde passou. Tudo comecou no Chile, e o curso com nome muito peculiar se chamava "Engenharia Comercial". O professor dizia que existiam tres fontes de poder: o carisma, a lei e a violencia. Achou muito interessante aquelas palavras, e ficou impressionado com a ideia de uma pessoa mover multidoes somente com o poder de seu carisma, aliado, claro, muitas vezes, com uma boa oratoria, por exemplo. E o que era o poder? Pensou. Ah, fazer com que outra pessoa te obedeca e faca o que voce manda, ora bolas. Seja atraves de seu carisma, ou se necessario, atraves do uso da violencia! Na epoca, foi ate' o quarto de seu irmao, e lhe pediu uma cerveja. Agora. 5 minutos se passaram... Olhou para ele e repetiu: Ei, nao escutou? To com sede e quero uma cerveja agora, porra! Ficou so' nisso mesmo. Era muito mais fraco, e nem pensar em cair no braco com o primogenito. Chegou a hora de partir. Ja' havia aprendido o suficiente no Chile; aquelas ideias eram muito estranhas para serem colocadas em pratica. Pegou as malas e embarcou para Brasilia. Ficou um semestre como aluno especial e foi aceito no curso de Economia da UnB. Foi uma nova jornada e um turbilhao de ideias tambem. Nessa fase passou parte na ponte aerea Arquitetura-Economia, parte no vai-e-vem dos corredores do "minhocao". Da parte academica, lembrancas arduas de sua primeira monografia. Ficou em estado de choque quando o professor pediu no comeco do semestre o trabalho... Ele nem sabia o que era aquilo; monografia? Quando comecou as especificacoes, ficou roxo! Bem, no final, sao esses sofrimentos que ficam marcados na memoria. Parece que os professores fazem de proposito. Nunca aprendeu tanto em sua vida ate' entao. Foi a melhor monografia dos seus 15 anos academicos ate' hoje: A Derrocada da Uniao Sovietica. Lhe rendeu um nota SS. Nunca soube o que era SS, pois nunca tinha visto uma nota daquela. Para ele era algo como "Super Superior". Legal, passei; pensou de imediato. Mas a UnB nao era brincadeira. Apareceu o maldito "Calculo"! Nao, nao era calculo renal. Era matematica mesmo... Integral, diferencial, e todas essas coisas chatas. Franz precisava de novos ares. Pegou suas malas e embarcou para Fortaleza, Ceara'. Da nova faculdade nao aproveitou muito o lado academico, pois acabou tendo problemas de "incompatibilidade de sistema operacional." Numa aula, o professor nao soube responder a um aluno o que era "marketing". Franz ficou abismado com a falta de preparo do professor. Nao podia ficar passivo a tal situacao e respondeu. Pronto; aquilo acabou com ele. Ficou marcado! Dali em diante, o professor tinha sempre que dar alguma indireta para cima dele, todas as aulas. Depois disso, gracas a tres garrafas de cerveja, duas doses de pinga antes das aulas, e livros comprados e destrinchados, o curso passou na mais tranquila paz. Entretanto, sentia que faltava alguma coisa. Precisava estudar mais. Sim, uma especializacao em Relacoes Internacionais! Aguentar mais dois anos e outra faculdade seria outro problema. Por isso, escolheu de imediato a parte pratica e "punk rock" de sua monografia: vida de imigrante em Nova York. Escreveu de forma mediocre, mas viveu de forma unica, sua. Na volta a terra natal, nao conseguia mais enxergar.

13.3.09

Coisas de primeiro mundo

Primeiro mundo e' sinonimo de honestidade e confianca. Sao qualidades que alguns estudiosos chamam de "capital social". Algo que, com medidas coercitivas pontuais, mantem a engrenagem girando nos paises desenvolvidos. O "primeiro-mundista" quando perguntado se gosta da cor vermelha, responde: sim, ou nao. O "terceiro-mundista" ja' passa para o "talvez", ou "eu acho que"... Fica na indecisao. No Terceiro Mundo, quando alguem lhe diz o preco de alguma mercadoria, pela mesma logica de raciocionio, existe um "talvez", e um meio termo. O primeiro "choque cultural" de Franz foi quando estava em Toronto, Canada, e teve que levar o carro de um amigo a oficina. O defeito nao era grande, entretanto, necessitava inspecao especializada. O local indicado era em um bairro de imigrantes portugueses, pois naquela cidade, eram conhecidos por sua capacidade tecnica. Chegando na oficina, nada diferente das grandes agencias especializadas brasileiras, pensou Franz. Estava ja' visualizando: "Tratar com um brutamontes, bigode, cabeludo, macacao, cheio de graxa, imundo, Joaquim, mascando pao..." Acorda Franz! Um homem estava batendo no vidro de seu carro. Ele tinha cochilado por alguns minutos, esperando por sua vez para ser atendido. O mecanico pede a chave, entra no carro, e o leva ate a garagem. Na volta, lhe entrega o recibo de entrega do veiculo: dia seguinte. Valor: 150 dolares. Como assim?

18.2.09

Um copo d'agua, por favor!

Numa tarde ensolarada de verao, morrendo de sede, Franz entra em um restaurante portugues, observa o garcon passar, e lhe pergunta se tem agua. O rapaz, muito educado, sem pestanejar, lhe responde que sim, e continua seu trabalho, atendendo outras mesas, pois o restaurante estava lotado. 10 minutos depois, Franz demonstrando estar irritado comeca a se mexer e encarar o garcon. Ao perceber, o rapaz se aproxima, e pergunta: Posso lhe ajudar? Franz literalmente da' um grito: Nao acredito! Se levanta, e sai do restaurante. Super irritado, caminha dois quarteiroes, e avista seu oasis. Ufa, um restaurante brasileiro! Pensa consigo mesmo. Naquele similar cenario, entra, senta e avista o atendente. O garcon passa, e ele, nas mesmas palavras, pergunta se tem agua. Prontamente um copo enorme com gelo e agua chega a sua mesa. Franz, nao podia acreditar no que estava vendo. Pula encima do copo, agarra a "crianca", abre a boca, e engole o conteudo, de tanta sede que estava. O garcon, com medo, deu um passo para tras... Voce nao perguntou se tinha agua? Isso mesmo, respondeu Franz. Obrigado.

25.1.09

A Virgula


Franz acordou disposto a descobrir o que faria, ou melhor, o que precisaria um homem para se tornar realizado na vida. Estava caminhando em direcao ao auditorio da Faculdade de Economia da Universidade de Brasilia (UnB), pois ali assistiria uma palestra sobre a Era do Capital de Eric Hobsbawn. Nao tinha muito tempo para chegar ao "ponto final", mas na pior das hipoteses, pensou consigo mesmo, o coloquio lhe traria inspiracao. Realmente, ja' tinha atravessado a L2, e nada aconteceu. Entretanto, pensou no tema que move a humanidade: trabalho. Claro! Todos precisamos de trabalho! Estava indo na direcao certa. Mas tinha que delimitar sua linha de pensamento. Ele, por exemplo, para ser feliz, precisaria de uma familia, de uma casa, um carro... Como qualquer pessoa comum. E para ter tudo isso precisaria ter um trabalho. Se nao tiver um trabalho "primeiro", como vai ganhar dinheiro, e ter o resto, sustentar a familia?!?! Pois bem, para ter uma familia, Franz tinha que ganhar o suficiente para sustenta-la, e se sobrasse alguma coisa, poderia comprar um carro, e fazer um emprestimo para uma casa. Era isso que ele queria? Hobsbawn disse, como todos os outros comunistas, que o trabalhador foi extirpado do nucleo familiar. Separado, solitario, voltou a ser Franz. Um barbudinho levantou no meio do auditorio lotado de estudantes e disse em alto e bom tom: voces esqueceram da VIRGULA! Virou-se, deu as costas ao palestrante, e saiu correndo. Todos ficaram, literalmente, boquiabertos.... Franz, chegou em casa, abriu o armario, vestiu seu par de botas, encheu o peito de ar e foi trabalhar. Mas trabalhar aonde se ele nao tinha um emprego convencional, ele pensou consigo mesmo novamente?!?! Bem, as botas poderiam lhe trazer boa sorte, quem sabe. Na Era do Capital, o autor explica certas simbologias e codigos sociais como, por exemplo, o chapeu do trabalhador, a calca, as botas, etc... Franz podia nao ter tudo o que e' esperado de um trabalhador tipico assalariado, mas pelo menos tinha suas botas.

Personagens

Cassandra: tradutora que trabalha para importante editora especializada em livros de biografia e historia. Ela e' o tipo de pessoa que nao consegue se encaixar numa vida social normal; encontra, muitas vezes, no isolamente, sua fulga, e nos livros seu refugio.

Cassandra: a translator who works for an important publisher specialized in biography and history books. She is the kind of person who cannot fit in a normal social life; she finds, most of the times, in self-confinement,
her scape, and in books, her refuge.
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Napo: ex-filho de militar e roteirista de cinema cuja vida foi acabada pelo alcool e drogas. Esta' em constante conflito interno consigo mesmo: perturbado, afetado. Atualmente, vive de pensao do sindicato.

Napo: ex-military-kid and film screenwriter whose life was ruined by alcohol and drugs. He seems to be always in a long-lasting and permanent state of self-conflict. Nowadays, he lives from the Union's financial support.
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Garcia: cobrador de onibus e membro ativo do partido comunista. Possui ampla biblioteca particular sobre o tema, tornando-se inclusive referencia partidaria. As vezes, seu fanatismo torna-se tao paradoxo que passa a ser ate' mesmo romantico.

Garcia: bus driver and member of the communist party. He became a political reference in the party due to the large collection of books in his private library. Such a fanatic with paradoxical ideas that sometimes he is called "The Romantic".
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Franz: editor de guia artistico-cultural. Participa de projetos pelo mundo afora, geralmente patrocinado por ONG's para atualizar e trocar experiencias. Seu constante desafio e' nao deixar transparecer sua falta de sentimento "nacionalista".